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O pedágio invisível da transformação social

Foto do escritor: Henrique Almeida
Henrique Almeida
16 de jun.
4 min de leitura

Transformação social, protagonismo juvenil, envelhecimento saudável, inclusão produtiva, preservação ambiental. Essas expressões aparecem com frequência em relatórios institucionais, campanhas publicitárias e discursos de responsabilidade social. São conceitos importantes, capazes de mobilizar recursos, pessoas e organizações em torno de causas legítimas.


Mas existe uma pergunta que raramente ocupa o centro do debate: quanto custa fazer a transformação social acontecer?


A sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil é um dos maiores desafios do setor. Diferentemente das empresas, que geram receita a partir de suas atividades, organizações sociais dependem de editais públicos, leis de incentivo, fundos municipais, programas governamentais, organismos internacionais, emendas parlamentares e doações privadas para manter suas ações.


A complexidade desse sistema fez surgir um mercado especializado em elaboração de projetos e captação de recursos. Em sua origem, trata-se de uma atividade legítima e necessária. Muitas organizações não possuem equipes técnicas capazes de navegar pela burocracia dos editais, compreender exigências legais ou estabelecer relações com potenciais financiadores. Nesse contexto, empresas especializadas cumprem um papel importante ao conectar oportunidades a iniciativas que geram impacto social.


O problema começa quando a intermediação deixa de ser uma ponte e passa a funcionar como um pedágio.


Ao longo dos anos, consolidou-se um modelo em que parte significativa das organizações sociais permanece dependente de intermediários para acessar recursos que deveriam fortalecer sua própria autonomia institucional. Em vez de transferir conhecimento, desenvolver capacidades e aproximar investidores dos territórios, algumas estruturas acabam concentrando informações, relacionamentos e oportunidades.


A organização aprende a executar projetos, mas não aprende a captar recursos. Aprende a prestar contas, mas não constrói relações diretas com investidores. Aprende a operar programas sociais, mas permanece distante dos espaços onde as decisões sobre financiamento são tomadas.


O resultado é a criação de uma dependência permanente.


Essa lógica se torna ainda mais preocupante quando empresas de captação passam a ocupar posições estratégicas em diferentes espaços do ecossistema social. Em alguns contextos, atuam simultaneamente na elaboração de projetos, na interlocução com financiadores e em ambientes de influência e deliberação ligados às políticas públicas e aos mecanismos de financiamento. Ainda que nem toda situação represente irregularidade, é legítimo questionar até que ponto essa concentração favorece a diversidade de atores e a democratização do acesso aos recursos.


A contradição é evidente.


Enquanto o discurso institucional fala em emancipação, fortalecimento comunitário e desenvolvimento sustentável, muitas organizações permanecem dependentes dos mesmos intermediários ano após ano.


Enquanto se fala em protagonismo, a capacidade de negociação continua concentrada. Enquanto se fala em fortalecimento institucional, o conhecimento sobre financiamento permanece restrito. Enquanto se fala em transformação, perpetuam-se relações de dependência que pouco contribuem para a autonomia das organizações e dos territórios.

Mas essa reflexão não pode se limitar às organizações sociais e às empresas de captação. Ela precisa alcançar também as empresas que destinam recursos por meio das leis de incentivo fiscal e outros mecanismos de investimento social.


Muitas delas investem milhões de reais todos os anos em projetos sociais, culturais, esportivos e ambientais. No entanto, quantas conhecem verdadeiramente as organizações que executam essas ações? Quantas mantêm diálogo direto com os territórios beneficiados? Quantas compreendem os desafios cotidianos enfrentados pelas equipes que transformam recursos em impacto concreto?


Em muitos casos, a relação acontece por meio de uma longa cadeia de intermediação. O investidor conhece relatórios, indicadores e apresentações. Conhece a empresa responsável pela captação. Mas raramente conhece a comunidade, suas lideranças, seus processos e suas potencialidades.


Sem perceber, empresas que desejam gerar impacto social podem estar fortalecendo um modelo excessivamente mercantilizado da própria transformação social.


Um modelo em que o acesso aos recursos se torna um ativo controlado por poucos.

Um modelo em que organizações competem por aproximação com intermediários em vez de construir relações diretas com investidores.


Um modelo em que a sustentabilidade institucional é frequentemente defendida nos discursos, mas raramente construída na prática.


Não se trata de eliminar empresas de captação ou desconsiderar sua importância. O conhecimento técnico possui valor e deve ser remunerado de forma justa. A questão central é outra: o objetivo dessas relações é gerar autonomia ou perpetuar dependências?

Talvez seja o momento de as empresas investidoras ampliarem sua compreensão sobre impacto social. Não basta medir quantas pessoas foram atendidas, quantas oficinas foram realizadas ou quantos projetos receberam recursos. É preciso perguntar também que tipo de ecossistema está sendo fortalecido.


As organizações estão se tornando mais autônomas?


Estão desenvolvendo capacidade própria de mobilização de recursos?

Estão construindo sustentabilidade institucional de longo prazo?

Também seria oportuno perguntar se as organizações que defendem participação e protagonismo social praticam internamente esses mesmos princípios. Seus quadros associativos são legítimos e representativos? Há renovação periódica das lideranças? Existe sucessão de gestão ou apenas alternância entre os mesmos grupos?


Se a resposta for negativa, talvez seja necessário repensar parte da lógica que sustenta o investimento social privado e incentivado no Brasil.


A transformação social não deveria ser medida apenas pelos resultados produzidos nos territórios. Ela também deveria ser avaliada pela capacidade de fortalecer organizações, democratizar oportunidades e distribuir poder.


Porque impacto social verdadeiro não acontece apenas quando recursos chegam às comunidades.


Impacto social verdadeiro acontece quando as comunidades, suas lideranças e suas organizações desenvolvem condições para construir seus próprios caminhos, estabelecer suas próprias relações e sustentar suas próprias transformações.


Do contrário, corremos o risco de criar um sistema que fala de emancipação, mas depende da permanência da dependência para continuar funcionando.

 
 
 

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