A síndrome do sucesso nas organizações sociais


Como organizações sociais, criadas para combater desigualdades, frequentemente reproduzem as mesmas estruturas de poder, exclusão e vaidade que criticam na sociedade e no mercado.
Aos 13 anos, eu vendia frutas na feira livre da minha cidade. Acerola, maracujá, limão, pitomba e abacate. Não existia plano de negócios, análise de mercado ou estratégia financeira. Existia apenas a necessidade de fazer acontecer.
Anos depois, tornei-me jornalista, produtor cultural, cineasta e gestor de projetos sociais. Para muitos especialistas em carreira, minha trajetória pode parecer errática. Para mim, ela representa exatamente o contrário. Cada experiência ampliou minha capacidade de compreender pessoas, territórios e possibilidades.
Talvez por ter vindo de uma realidade onde oportunidades eram escassas, sempre carreguei uma inquietação permanente: se foi possível para mim, por que não seria possível para outros?
Foi essa pergunta que me aproximou dos projetos sociais. Fui o primeiro da minha família a concluir o ensino superior. Também me tornei o primeiro jornalista formado da minha cidade. O que poderia ser visto como uma conquista individual sempre me pareceu um retrato de uma desigualdade coletiva. Afinal, ninguém deveria ser considerado excepcional apenas por ter alcançado direitos básicos.
Durante anos, trabalhei em organizações sociais acreditando que elas representavam espaços mais democráticos, colaborativos e comprometidos com o desenvolvimento humano. Em muitos momentos, de fato representaram. Conheci lideranças inspiradoras, profissionais comprometidos e pessoas capazes de dedicar suas vidas à transformação social.
Mas também encontrei uma contradição desconfortável.
À medida que organizações crescem, captam recursos e conquistam reconhecimento, elas podem desenvolver os mesmos vícios das estruturas que nasceram para combater.
O desejo de servir dá lugar à disputa por espaços de poder. A construção coletiva cede espaço à preservação de grupos internos. A inovação passa a ser vista como ameaça. Novas lideranças deixam de ser celebradas e passam a ser observadas com desconfiança.
É o que chamo de síndrome do sucesso.
Quando uma organização alcança estabilidade, reconhecimento e influência, surge o risco de que sua principal preocupação deixe de ser a missão institucional e passe a ser a própria manutenção de quem ocupa posições de comando.
Nesse ambiente, ideias podem ser rejeitadas não por serem inadequadas, mas por desafiarem zonas de conforto. Lideranças podem ser afastadas não por incompetência, mas por despertarem receios. O crescimento institucional deixa de ser uma construção coletiva e passa a obedecer às dinâmicas de grupos interessados em preservar sua permanência.
O mais curioso é que esse comportamento não difere muito daquele encontrado em empresas privadas, estruturas partidárias ou organizações governamentais.
Muitas instituições sociais criticam a concentração de poder, mas reproduzem práticas centralizadoras. Defendem participação, mas restringem processos decisórios. Falam em inclusão, mas excluem vozes que questionam suas estruturas. Pregam transformação, mas resistem a transformar a si mesmas.
O problema não está apenas nas pessoas. Está nos modelos de governança que permitem que essas distorções se consolidem.
Uma organização social não deveria ser medida apenas pelos recursos que mobiliza, pelos projetos que executa ou pelos prêmios que recebe. Sua coerência também precisa ser avaliada pela forma como distribui poder, forma lideranças, promove renovação e constrói processos democráticos.
Transformar uma comunidade exige muito mais do que oferecer serviços. Exige criar ambientes capazes de praticar internamente os valores que defendem publicamente.
Essa talvez seja uma das provas mais difíceis da transformação social: não apenas mudar a realidade dos outros, mas impedir que o sucesso nos faça reproduzir exatamente aquilo que pretendíamos combater.
Minha trajetória continua. Novas iniciativas surgem, novos desafios aparecem e novos caminhos são construídos. Mas a principal lição permanece a mesma: transformação social não acontece quando uma pessoa vence.
Ela acontece quando a vitória de uma pessoa abre caminho para que muitas outras também possam vencer.





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